elas não florecerão!
Se não enterrarmos as sementes
Nunca veremos as flores! - R.Rosman.
O Poetinha Vinícius de Moraes.
A brusca poesia da mulher amada
Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?
Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.
Rio de Janeiro, 1938
Rio de Janeiro, 1938
A brusca poesia da mulher amada (II)
A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo.
A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora.
A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen.
A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico.
A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo.
A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência.
Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens.
Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura.
Nascitura da mulher amada
É a mulher amada.
A mulher amada é a mulher amada é a mulher amada
É a mulher amada.
Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando!
E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação.
Por isso, seja ela!
A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada!
Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!
Rio de Janeiro, 1950
Rio de Janeiro, 1950
brusca poesia da mulher amada (III)
A NelitaMinha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
A NelitaMinha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que eu haja sido herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrânciajá me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão.
Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas...
Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo...
Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas!
Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!
Rio de Janeiro, 1963
Rio de Janeiro, 1963


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