segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

"O Amor." por Roland Barthes

"Que é que eu penso do amor? - Em suma, não penso nada. Bem que eu gostaria de saber o que é, mas estando do lado de dentro, eu o vejo em existência, não em essência. O que quero conhecer (o amor) é exatamente a matéria que uso para falar (o discurso amoroso). A reflexão me é certamente permitida, mas como essa reflexão é logo incluída na sucessão (que supõe linguagens exteriores umas às outras), não posso pretender pensar bem. Do mesmo modo, mesmo que eu discorresse sobre o amor durante um ano, só poderia esperar pegar o conceito 'pelo rabo': por flashes, fórmulas, surpresas de expressão, dispersos pelo grande escoamento do Imaginário; estou no mau lugar do amor, que é seu lugar iluminado: 'O lugar mais sombrio, diz um provérbio chinês, é sempre embaixo da lâmpada'."
O PARADOXO DO AMOR
O amor, sendo o desejo de união com o outro, estabelece, no entanto, um tipo de vínculo paradoxal: o amante deve cativar para ser amado livremente. Podemos mesmo dizer que o fascínio é gerador de poder: o poder de atração de um sobre o outro. No entanto, tal "cativeiro" não pode ser entendido como ausência de liberdade, pois a união deve ser condição da expressão cada vez mais enriquecida da nossa sensibilidade e da nossa personalidade. É fácil observar isso na relação entre duas pessoas apaixonadas: a presença do outro é solicitada na sua espontaneidade, pois são os dois que escolhem livremente estar juntos.
Há um outro paradoxo no amor: ele deve ser uma união, com a condição de cada um preservar a própria integridade. Faz com que dois seres estejam unidos e, contudo, permaneçam separados.
O amor é o convite para sair de si mesmo. Se a pessoa estiver muito centrada em si mesma, não será capaz de ouvir o apelo do outro.
Fonte: Filosofando. Introdução à filosofia. Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria helena Pires Martins.

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