Arromba a noite
rasga insana lua cheia
eia!
gritos de alucinações.
deuses mitológicos!
perfume de flores, doce.
explode o grito
o peito segreda o gozo
e entre a insegurança humana
o êxtase animal inflama.
teu desejo se revela
quando a saliva escorre
a língua sorve a gôta de vinho
no canto do lábio inferior.
teu olhar penetra e resgata
quem ainda não fui.
continuo a cair
solto na incerteza de mim mesmo.
quando me olha
você se vê.
tudo que quer de mim
é encontrar a si.
somos "eus".
somos tantos!
o grito cega o verbo!
não sei pra onde vou.
há sempre um de mim que te quer.
e no encontro de nós
uma orgia se faz.
o seu silêncio é omisso!
somos visitados à noite
por ninfas e bacantes
que nos devoram até os ossos.
e na dor, o nosso desejo embala nossa orgia.
estamos entre os tempos!
vivemos com a mente no futuro e com os pés no passado.
os sinos dobram!
evoé!!!
anuncia-se o gozo!
evoé!!!
cantam os mantras.
eia!
a aldeia vibra em festa!
nossa alma envolta com a luz da lua cheia,
dança feito criança.
dentes afiados
dilaceram nossa solidão.
os dragões sobrevoam nossas cabeças
sopram labaredas.
teus olhos perdidos
buscam penetrar no vazio por onde nos perdemos
na ânsia de nos encontrar.
tantas línguas serpenteiam por nossos corpos.
no emaranhado de nossa pluralidade
nos tornamos um!
os mesmos desejos e medos.
quando somos um,
nos tornamos bichos.
eu, você e as bacantes.
eu, você e dionísios.
a dor nos liberta do medo do buraco negro.
nunca paramos de cair!
nunca chegaremos ao fim!
nunca saberemos quem somos!
por R. Rosman.

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