Eu, pecador, absoluto em meu pecado, todo poderoso construtor dos meus
desvarios, confesso-me a mim. Persigno-me, persigo-me, prossigo nesta
impossível
impassível jornada, trama indecifrável. Eu, pecador, crivado
pelas setas e
espinhos da dúvida, indivíduo no mundo, persigo meu sonho. E
meu sonho
intromete-se em minha vigília, soltando no ar os seres que povoam
minha
mente....Assim estava, assim pensava ele, abandonado ao tépido calor
daquele
vinho, naquele fim de tarde, jogado sobre a poltrona, quase a
dormir, naquele
profundo retalhar de coisas antigas, de crenças antigas,
naquele ato de dissecar
as próprias dúvidas, a própria vida.De repente, ouve
um zumbido e o barulho de
vida próximo a ele. É uma mosca, que ronda o ar,
ao redor da fruteira. Ali estão
as peras, que adormecem e apodrecem seu
marasmo , lassidão, solidão e abandono.
A menos que uma mão faminta tome-as,
levando-as à boca para saciar a fome, elas
ali permanecerão, eternamente em
seu marasmo, apodrecendo.Ele observa a mosca,
que zumbindo em círculos
aproxima-se da fruteira. E se admira ao ver seu vôo
bonito, concêntrico, o
brilho refletido em suas asas azuis quando o sol rebate
nelas diretamente.
Acompanhando com o olhar vê quando ela, finalmente, pousa
sobre as frutas.
Como que magnetizado, sente-se penetrar na realidade daquele
inseto, que
agora passeia sobre a superfície dourada da pêra; ele agora é a
própria
mosca e passeia sobre a fruta, sentindo toda a carícia do veludo sob as
patas, a tepidez dourada provocando arrepio nos pelos.Prepara-se para sugar
todo
o seu sumo, sua seiva. E exatamente quando começa a gozar as delícias
de sua
empreitada, desvia os olhos para cima, deparando-se com um magnífico
azul
violáceo , um sol que a convida a viagem rumo a outros ambientes. E ela
imagina
milhares e milhares de novos frutos, antecipando delícias de
paraísos
inimagináveis. E se divide: não sabe mais se se entrega ao doce
ofício de sugar
a seiva da dourada pêra ou se levanta vôo em busca de outras
paragens. E se
debate entre, e se confunde, não percebendo a pesada mão de
alguém que se abate
sobre ela, que agora está tombada, inerte sobre a
fruta.... Quando sentiu a
tragédia, voltou a ser ele próprio, sentindo as
forças esgotarem-se nos
estertores da morte. Novamente é ele o observador, e
observa a cena: as peras
continuam na fruteira, no mesmo lugar a mesa e a
toalha, as flores, a sala, ele
e seus olhos. Tudo permanece, como sempre,
apenas a mosca está morta e já não
faz mais parte do ambiente. E, no
entanto, nada mudou. Todo o conflito que viveu
todo o seu angustiante
dividir-se, tudo é acabado. O mundo permanece indiferente
à sua morte, à sua
queda. O seu pequeno mundo, feito de uma sala, de uma mesa e
de uma fruteira
cheia de peras, que continuam adormecidas, apodrecendo sua
solidão e seu
marasmo nas tardes quentes.Silenciosamente, pé ante pé, como se
cumprisse um
ritual, ele se levanta e se aproxima da fruteira. Com a ponta dos
dedos
retira cuidadosamente o inseto, e sem uma sombra de qualquer sentimento no
rosto, atira-o na cesta de lixo, seu último reduto.Eu, pecador, absoluto em
meu
pecado, todo poderoso construtor dos meus desvarios, confesso-me a mim.
E jogado
sobre a poltrona, nestas tardes monótonas e quentes, pressinto e
antecipo a
queda da próxima mosca, e o ranger de dentes das peras, deixadas
solitárias na
fruteira.
William Blake
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
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