

"No mundo holístico não existe sensação alguma de distinção entre uma pessoa mesma e o que for com o que essa pessoa identifique como si mesma. À medida que se é consciente dessa identificação, se opera no reino holístico, e na medida em que a pessoa seja consciente do "demais" estará operando em outros reinos. Teremos podido comprovar que, em nossa progressão de um mundo a outro, a sensação de separação - atributo bastante primordial e característico do mundo objetivo - decresce no mundo subjetivo (uma maior sensação de conexão indica menor separação) e é ainda menor no mundo simbólico (apesar de que o nível do reflexo ainda denota que se reflete algo alheio). Uma pessoa também pode ser holisticamente consciente do que considera como «si mesma», ao mesmo tempo que é não holisticamente consciente do que aparece como «não si mesma». Assim portanto, o membro de uma tribo na África ocidental pode identificar-se holisticamente com sua própria tribo (ou seja, pode não ter um sentido de identidade pessoal afora ser componente de sua tribo) e uma visão completamente objetiva, separatista e hostil de outra tribo. Apesar de que a identificação holística é algo natural na experiência humana (muita gente estende normalmente seu sentido de identidade a suas posses pessoais, à família, à cidade ou a seu país), se precisa uma destreza considerável para poder penetrar e operar conscientemente nesse mundo. Os atores e as atrizes, cuja profissão emana de uma antiqüíssima tradição xamânica, são os melhores praticantes conhecidos dessa arte na atualidade. Na antigüidade, e até certo ponto hoje em dia, os xamãs eram e são capazes de adotar a identidade de animais, espíritos da natureza e de certos arquétipos que aparecem sob a capa de deuses e deusas. Nesse estado de identificação, adquirem as qualidades e os poderes dos entes em questão. Assim como um bom ator, normalmente tímido, pode interpretar convincentemente o papel de um herói seguro de si mesmo, com uma mentalização adequada, o xamã consegue ter a força de um urso ou a sabedoria de um deus graças à contemplação e a uma interpretação tão perfeita do papel, que o "papel" é quem interpreta a ele. Isto deriva do pressuposto secundário deste nível, que sustenta que o saber engendra o ser. «Realiza a obra e usufruirás do poder», disse Emerson. Neste nível, existem essencialmente dois modos de cura xamânicos. Em primeiro lugar, existe a «canalização», por meio da qual se adota, em maior ou menor grau, a identidade de alguém com maiores poderes de cura, ou alguém se identifica com um poder curativo superior, para atuar sobre outrem com fins curativos. Em segundo lugar, existe um processo que eu denomino «grokking and guiding», pelo qual alguém se identifica com a pessoa que deve ser curada, ou se converte na mesma, e então se cura a si próprio. Nem se tem que dizer que, para praticar com êxito este segundo método, se deve estar muito seguro de si mesmo. Do contrário, se pode sentir tão perturbado pelo estado do outro que se veja obrigado a abandonar o nível holístico sem poder operar com eficácia nele mesmo, ou então esqueça sua autêntica identidade, adquirindo os sintomas do outro sem chegar a ser capaz de curar-se. Pode ser que as pessoas que sejam fortemente empáticas experimentem isto com freqüência. Muitos terapeutas, por exemplo, se identificam a tal ponto com os problemas de seus pacientes ou clientes que passam a sofrer das doenças que buscam ajudar a curar. Por conseguinte, quando ensino a meus alunos a curar no nível holístico, lhes recomendo que limitem todo o processo de identificação a um máximo de um noventa e nove por cento, de modo que o «um por cento de xamã» sempre possa voltar a identidade de partida".
fonte: arcadauniao.org.br
