sábado, 16 de agosto de 2008

METAFÓRICO.

  • ONTEM

    Vi um pássaro pousado num galho seco de um pé de Jamelão.
    Vi crianças sorrindo correndo pelo parque ao som de cirandas antigas.
    Vi a vida entrando pela minha íris dilatada!
    Vi Jim dançando como um xamã.
    Vi as ninfas sobrevoando o inferno.
    Vi o amor derretendo como aço.
    Vi o passado se contorcendo como luz.
    Vi poetas bêbados escrevendo em guardanapos, nos bares sujos.
    Vi anjos sem asas andando pelos bairros de subúrbio escuro.
    Vi mulheres apaixonadas chorando em janelas.
    Vi a lua partida no meio.
    Vi a esperança voltar de longe.

    Ontem eu estava ausente.
    Ontem você era uma foto, uma lembrança antiga.
    Ontem era diferente.
    Ontem eu chorava em silêncio olhando o céu escuro.
    Minha noite estava vazia.
    Ontem estava longe!
    Andava pelos infernos.
    Fui a muitos deles.
    Conheci demônios e bebi com alguns deles.
    Entrei em lugares estranhos.
    Perambulei pelo perigo.
    Sei que o arcanjo que vive ao meu lado teve muito trabalho.
    Vi coisas tristes.
    Vi o sangue espalhado pelo chão.
    Ontem minha alegria estava perdida em algum outro lugar.
    Visitei hospícios.
    Falei com loucos.
    Dormi com drogadas.
    Cantei para assassinos.
    Virei as noites em pares.
    Ontem eu procurei alguma coisa que me desse força.
    Procurei alguém.
    Todos já haviam ido embora.
    O palco estava vazio.
    A platéia em silêncio.
    Vi sombras.
    Ouvi vozes.
    Quero flores!
    Quero música!
    Quero tarde de paz.
    Quero teus carinhos.
    Quero a veia estourada de tanto pico de heroína!
    Vi o menino ali, jogado com o sangue espirrando como um chafariz.
    Vi o diretor esfaquear a atriz!
    Vi Rigolleto, Verdi, Callas, Nijinski...
    Vi um batalhão de fantasmas ressurgirem na minha mente.
    Ontem era tão improvável esse amor.
    Ontem era tão louco, sequer, cogitar isso tudo.
    O mundo deu um 360°.
    Encaixou-se com a minha paranóia.
    Vi pérolas atiradas aos porcos.
    Quando você pensava que nada acontecia,
    Era nesse momento que havia a hecatombe.
    Enquanto você dormia, eu decifrava a sua vida.
    Ontem éramos outras pessoas.
    Precisávamos ser outras pessoas para nos transformar nessas outras que somos hoje e nas outras que seremos amanhã.
    A cada dia uma roupa diferente.
    Vi a morte linda e sedutora, mas disse não!
    Andei pelos abismos e caí até em alguns, mas consegui escapar.
    Ontem eu era invencível.
    Ontem eu era invisível.
    Ontem eu era cego.
    Estamos na esquina de anos atrás.
    Nos encontramos.
    Após assassinatos e índios mortos.
    Após deuses pagãos serem decapitados.
    Após a vida dar um nó.
    Estamos novamente frente a frente.
    A criança já fala e corre pela grama úmida.
    Eu não existo para ela.
    Eu não estava alí.
    Não ninei.
    Não socorri.
    Não existi.
    Ainda não existo e não existirei.
    Sou um fantasma.
    Ontem eu vi prostitutas nas ruas como deusas.
    Ontem eu amei mais.
    Você voltou e trouxe de volta quem eu era.
    Eu não lembrava mais de mim.
    A lua hoje estava partida.
    O dia foi leve.
    Com você voltou o brilho!
    Voltou às flores no jardim.
    E hoje eu deito e te espero.
    Embriago-me de vinho e sonho.
    Canto em Italiano.
    Ave Afrodite!
    Já havia esquecido como o mel era doce.
    Onde você pensar...
    ...eu estarei.
    Virei no vento e entrarei em você.
    Na sua vida.
    Sempre que eu apareço explode uma bomba!
    Eu sempre trago estragos!
    Eu transformo, transgrido, destruo...
    Sou um demônio!
    Um xamã.
    Sou Baco!
    Sou Dionísos!
    Traga-me as oferendas!
    Faça as promessas!
    Verta o sangue no meu altar!
    Mergulhe!
    Eu sempre provoco o suicídio!
    Eu sempre arrombo a porta!
    Vi o passado voltar nos teus olhos.
    Há contas para serem acertadas.
    Há pontos.
    Há prantos.
    Vi meus olhos brilharem de paz.
    Vi seu sorriso numa tarde de sol.
    Vi nossas mãos entrelaçadas.
    Vi as cores retornarem ao meu mundo daltônico.
    Estou com a arma engatilhada!
    Não quero causar mais uma catástrofe na sua vida.
    Fuja para bem longe do demônio.
    Salve a sua vida!
    Vi lágrimas em seu rosto.
    Vi beijos em sua boca.
    Vi orgasmos.
    Vi tristezas.
    Vi amores.
    Eu andei muitos quilômetros em silêncio.
    Estou nu na sua frente!
    Olhe para mim!
    Olhe!
    Não há mais máscaras.
    Chega!
    Voltemos do abismo!
    Sentemos juntos na cadeira.
    Eu e você.
    E deixemos a tarde cair.
    Pra sempre.
    Dê-me seu coração.


Por Ronald Rosman.

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