
- AUTOPENETRAÇÃO –
Por Ronald Rosman
Venha comer a minha carne
Venha beber o meu sangue
Venha antes que esfrie
O tempo espreita a caça
E Peca pelo excesso de cuidado
Não meça as palavras
Arremessa no alvo
Acerte no centro do meu hipotálamo
As flores do deserto são raras
É difícil de encontra-las
E eu estou no meio do nada
Penso que vejo as flores desabrochar
Penso que vejo pássaros comerem o olho da lebre
Penso que vejo os ¹Taramauaras dançarem em volta da fogueira
Onde queimam as bruxas medievais
Onde acena pra mim Joana Dark, Artaud, Bispo do Rosário...
Aldeões pisam nas vinhas do deserto
Esmagam cachos roxos
Expurgam o suco escuro
Como na noite fria
Onde nos aquecemos com raízes de ²Peyote
Onde fugimos da serpente de duas cabeças
Aqui no meio do nada eu consigo enxergar
Tudo.
A serpente busca a minha garganta
Ela se arrasta pela areia ainda quente pelo sol
Busca-me com a sua língua bifurcada
Enrosca-se
Provoca-me
Atrai-me
Ata-me com seu corpo cintilante
Refletindo a luz da lua vermelha.
Os índios proferem seus cânticos ritualísticos
A cuia de vinho passa de mão em mão
Há uma energia silenciosa que transcende a lógica.
Meu corpo estremece
Anunciando uma espécie de gozo
Perco a sensibilidade da pele
A mente entra em transe
As cores saltam dos olhos - Faróis de luzes multicores
Viajam como cometas pelas colinas
Feixes de luz.
O vinho desce amargo e doce
Aquecendo as tripas
Tocando a alma
Abrindo a mente
Sons de tambores ecoam nos ouvidos
Uivos evocam a manifestação divina
Mulheres nuas se esfregam nas areias vermelhas
Serpenteiam com a grande serpente
Mamam de suas tetas
O Veneno que traz a cura
O fogo incha
Azul, vermelho e amarelo.
Incensos emprenham o ar de gosto
Surge um leão de fogo
Que vem nos salvar de nós mesmos
Ele lança labaredas pelas ventas
E nos livra de nossa mente
Mistérios órficos espalham-se pelas canções e danças
Provocações
Incursões pelo deserto que tangencia o abismo
E o leão estava em nós
Dentro de nossas mentes acorrentadas
Pelos medos e culpas judaico-cristãs
Flautas sagradas de bambu penetram com suas notas orgásticas às profundezas de nossas entranhas inconscientes
“O corpo é a prisão da mente até que os cinco sentidos estejam desenvolvidos e abertos.”
O ³xamã desenvolve um ritual ¹intersemiótico
Invade por todas as portas abertas ou emperradas
“As pessoas são atraídas pelos tiranos”.
Um festival de ²fanopéia.
“Há sangue na rua acima de meu tornozelo”
A vida está dentro
Há vida dentro!
Deixe-se cavar o poço fundo!
O leão e a serpente dançam
Enroscam-se
Penetram-se
Contaminam-se
“Ela chegou na cidade e se foi com a luz do sol nos cabelos”
A pele livra-se do corpo
Livra-se dos ossos, do peso.
O cérebro espalha-se pelo espaço
Vomita os conceitos estabelecidos
Evacua os pais
Os carrascos
Os amores
Os medos...
O corpo flutua, leve.
³Simbiose
Alma e espírito
Sagrado e humano.
Lágrimas espocam cristalinas
Espermas se misturam às salivas pela boca que uiva e grita, ensandecida.
“Quando o sexo envolve todos os sentidos, torna-se uma experiência mística...”
O deserto explode de ritmos
De sons percussivos
Corpos nus retorcidos
Gritos
Pacto de sangue
A realidade salta aos olhos!
Tudo que realmente existe
Está na imaginação
Sem o preconceito do raciocínio
A mundo real não é!
A vida, que vivemos, é falsa.
O amor que achamos sentir é um blefe
Auto-sugestão.
Não tenha medo de entrar
Não pare na porta!
Deixe-se seduzir pela serpente prateada, cintilante.
Estamos mortos e nem sabemos.
Aceitamos a condição de cadáveres
Quando confrontados no deserto
Quando dilaceramos a carne e penetramos no abismo pessoal
Nos encontramos com quem somos.
Falta-nos coragem para enxergar o leão
Para permitir ser envolvido pela serpente
Ser queimado pela chama da liberdade
Às vezes nos acostumamos com as cadeias
Com as mentiras
Percamos a cabeça!
Percamos a razão!
“Quando o curandeiro prepara-se para entrar em transe, todos os aldeãos fazem um círculo à sua volta e percutem chocalhos e tambores. Existe um constante martelar”.
“A cura é lavrada do êxtase.”
A longa noite chega ao fim
Corpos atirados uns sobre os outros
Cinzas e brasas misturadas com areia
Crepúsculo e aurora na balança do tempo
Como o último poema esquecido num papel amarelado:
“Todo o humano
se esvai
de sua face
logo ela desaparecerá no calmo
pântano vegetal
Fique!
Meu amor selvagem!
Pela manhã um silêncio ensurdecedor governa o deserto
Mas se você parar,
Os uivos e gritos da noite passada
Ecoa no âmago entre a alma e o espírito
Entre o sagrado e humano
Assim viverá eternamente
Para sempre.
Às vezes é necessário
O distanciamento
Para a aproximação.
“A sociedade é uma lavagem cerebral”.
“O ¹amor é um punhado de estratagemas que possuímos para preencher o vão da vacuidade.”
“Deixa que o vento do oeste adormeça sobre o lago,
Fala em silêncio com teus luminosos olhos
Banha de prata o crepúsculo e de repente
Retiras-te enquanto enfurece o lobo
E o leão o escuro bosque espreita.”
(Citações de William Blake, Rimbaud e Jim Morrison)
Glossário:
1 – índios mexicanos.
2 – raiz alucinógena de uma espécie de cactos.
3 – curandeiro indígena.
1 – pluralidade artística.
2 – poesia visual imagética.
3 – associação vital de dois seres de espécies diferentes.
1- indefinido.
Por Ronald Rosman
Venha comer a minha carne
Venha beber o meu sangue
Venha antes que esfrie
O tempo espreita a caça
E Peca pelo excesso de cuidado
Não meça as palavras
Arremessa no alvo
Acerte no centro do meu hipotálamo
As flores do deserto são raras
É difícil de encontra-las
E eu estou no meio do nada
Penso que vejo as flores desabrochar
Penso que vejo pássaros comerem o olho da lebre
Penso que vejo os ¹Taramauaras dançarem em volta da fogueira
Onde queimam as bruxas medievais
Onde acena pra mim Joana Dark, Artaud, Bispo do Rosário...
Aldeões pisam nas vinhas do deserto
Esmagam cachos roxos
Expurgam o suco escuro
Como na noite fria
Onde nos aquecemos com raízes de ²Peyote
Onde fugimos da serpente de duas cabeças
Aqui no meio do nada eu consigo enxergar
Tudo.
A serpente busca a minha garganta
Ela se arrasta pela areia ainda quente pelo sol
Busca-me com a sua língua bifurcada
Enrosca-se
Provoca-me
Atrai-me
Ata-me com seu corpo cintilante
Refletindo a luz da lua vermelha.
Os índios proferem seus cânticos ritualísticos
A cuia de vinho passa de mão em mão
Há uma energia silenciosa que transcende a lógica.
Meu corpo estremece
Anunciando uma espécie de gozo
Perco a sensibilidade da pele
A mente entra em transe
As cores saltam dos olhos - Faróis de luzes multicores
Viajam como cometas pelas colinas
Feixes de luz.
O vinho desce amargo e doce
Aquecendo as tripas
Tocando a alma
Abrindo a mente
Sons de tambores ecoam nos ouvidos
Uivos evocam a manifestação divina
Mulheres nuas se esfregam nas areias vermelhas
Serpenteiam com a grande serpente
Mamam de suas tetas
O Veneno que traz a cura
O fogo incha
Azul, vermelho e amarelo.
Incensos emprenham o ar de gosto
Surge um leão de fogo
Que vem nos salvar de nós mesmos
Ele lança labaredas pelas ventas
E nos livra de nossa mente
Mistérios órficos espalham-se pelas canções e danças
Provocações
Incursões pelo deserto que tangencia o abismo
E o leão estava em nós
Dentro de nossas mentes acorrentadas
Pelos medos e culpas judaico-cristãs
Flautas sagradas de bambu penetram com suas notas orgásticas às profundezas de nossas entranhas inconscientes
“O corpo é a prisão da mente até que os cinco sentidos estejam desenvolvidos e abertos.”
O ³xamã desenvolve um ritual ¹intersemiótico
Invade por todas as portas abertas ou emperradas
“As pessoas são atraídas pelos tiranos”.
Um festival de ²fanopéia.
“Há sangue na rua acima de meu tornozelo”
A vida está dentro
Há vida dentro!
Deixe-se cavar o poço fundo!
O leão e a serpente dançam
Enroscam-se
Penetram-se
Contaminam-se
“Ela chegou na cidade e se foi com a luz do sol nos cabelos”
A pele livra-se do corpo
Livra-se dos ossos, do peso.
O cérebro espalha-se pelo espaço
Vomita os conceitos estabelecidos
Evacua os pais
Os carrascos
Os amores
Os medos...
O corpo flutua, leve.
³Simbiose
Alma e espírito
Sagrado e humano.
Lágrimas espocam cristalinas
Espermas se misturam às salivas pela boca que uiva e grita, ensandecida.
“Quando o sexo envolve todos os sentidos, torna-se uma experiência mística...”
O deserto explode de ritmos
De sons percussivos
Corpos nus retorcidos
Gritos
Pacto de sangue
A realidade salta aos olhos!
Tudo que realmente existe
Está na imaginação
Sem o preconceito do raciocínio
A mundo real não é!
A vida, que vivemos, é falsa.
O amor que achamos sentir é um blefe
Auto-sugestão.
Não tenha medo de entrar
Não pare na porta!
Deixe-se seduzir pela serpente prateada, cintilante.
Estamos mortos e nem sabemos.
Aceitamos a condição de cadáveres
Quando confrontados no deserto
Quando dilaceramos a carne e penetramos no abismo pessoal
Nos encontramos com quem somos.
Falta-nos coragem para enxergar o leão
Para permitir ser envolvido pela serpente
Ser queimado pela chama da liberdade
Às vezes nos acostumamos com as cadeias
Com as mentiras
Percamos a cabeça!
Percamos a razão!
“Quando o curandeiro prepara-se para entrar em transe, todos os aldeãos fazem um círculo à sua volta e percutem chocalhos e tambores. Existe um constante martelar”.
“A cura é lavrada do êxtase.”
A longa noite chega ao fim
Corpos atirados uns sobre os outros
Cinzas e brasas misturadas com areia
Crepúsculo e aurora na balança do tempo
Como o último poema esquecido num papel amarelado:
“Todo o humano
se esvai
de sua face
logo ela desaparecerá no calmo
pântano vegetal
Fique!
Meu amor selvagem!
Pela manhã um silêncio ensurdecedor governa o deserto
Mas se você parar,
Os uivos e gritos da noite passada
Ecoa no âmago entre a alma e o espírito
Entre o sagrado e humano
Assim viverá eternamente
Para sempre.
Às vezes é necessário
O distanciamento
Para a aproximação.
“A sociedade é uma lavagem cerebral”.
“O ¹amor é um punhado de estratagemas que possuímos para preencher o vão da vacuidade.”
“Deixa que o vento do oeste adormeça sobre o lago,
Fala em silêncio com teus luminosos olhos
Banha de prata o crepúsculo e de repente
Retiras-te enquanto enfurece o lobo
E o leão o escuro bosque espreita.”
(Citações de William Blake, Rimbaud e Jim Morrison)
Glossário:
1 – índios mexicanos.
2 – raiz alucinógena de uma espécie de cactos.
3 – curandeiro indígena.
1 – pluralidade artística.
2 – poesia visual imagética.
3 – associação vital de dois seres de espécies diferentes.
1- indefinido.





